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A Exposição 100 Anos da Literatura de Cordel foi inaugurada em Brasília, no Anexo do Palácio do Planalto, em junho de 2007; em setembro do mesmo ano foi exibida no Ceará, em Juazeiro do Norte, berço da xilogravura nordestina, no Centro Cultural Banco do Nordeste. Em outubro foi exposta na 27ª Feira Internacional do Livro de Santiago, no Chile a convite do Ministério da Cultura do Brasil – o Brasil foi o país convidado de honra da Feira em 2007. Nas três cidades em que foi exibida até o momento a exposição já foi visitada por cerca de cinco mil pessoas.

Com cerca de 150 obras expostas, entre gravuras decorativas, matrizes, panôs, cordéis e álbuns, a exposição reúne peças dos artistas:   J. Borges, Dila, Nena, Marcelo Soares, José da Costa leite, Amaro Francisco, Nena Borges, Ivan Borges, Manasses Borges, Bacaro, Givanildo, Lourenço Borges, J. Miguel, Palito, Minelvino, representando a escola pernambucana. E também: Walderedo, Mestre Noza, Abraão Batista, Stênio Diniz, José Lourenço, Cícero Lourenço, Francorli, Expedito, Zênio, Nilo, Manoel Inácio, representando a escola cearense.

No início da década de oitenta, fazendo as reportagens "O sertão só se informa bem com a literatura de cordel" e "A via sacra da gravura sertaneja", Jeová Franklin encontrou os artistas xilogravadores e assim iniciou sua coleção, por acaso, comprando xilogravuras e matrizes para recompensar os artistas pela matéria. O interesse pelo universo artístico da xilogravura e dos cordelistas cresceu. Junto com ele a atividade de colecionador, pesquisador e também a amizade pelos artistas.  Quase trinta anos de envolvimento proporcionam ao público a mostra desse acervo, com curadoria do próprio colecionador.

A xilogravura abarcou no Brasil pela primeira vez no período colonial, na edição de textos sacros, estampa de tecidos, baralhos e papel de parede. No séc. XIX foi usada na ilustração livros e periódicos e no início do seculo XX passou a ilustrar as tramas em verso dos folhetos de cordel. A primeira aparição da xilogravura na Literatura de Cordel foi em 1907, nos cordéis de Leandro Gomes de Barros e Francisco Chagas Batista narrando as aventuras do cangaceiro Antônio Silvino e depois de seu sucessor, Lampião.   Em seu desabrochar como arte, a xilogravura se apresenta como a mais rica e instigante expressão plástica da cultura rural brasileira.

O artista popular nordestino com simples pedaços de madeira usou a técnica milenar da xilogravura para retratar seu universo mágico, onde anjos se misturam com demônios, beatos com cangaceiros, animais com seres fantásticos, envolvidos nas crenças e desenganos dos necessitados.

A literatura popular em versos do cordel inspira a xilogravura nordestina. Muitos xilogravadores são também autores de literatura de cordel. 

A aridez inclemente de todas as estações torna a paisagem sertaneja campo fértil para a imaginação e assim é retratada pelos artistas. Com sede de justiça, seres sofridos, desprezados, de baixas condições sociais, com pouca leitura, encontram nos traços do gravador popular o campo para se transfigurarem em heróis e hóspedes de honra de um mundo melhor.  A xilogravura nordestina tem como principal característica o olhar voltado para seu próprio universo, destacando a força dramática dos sonhos e paradoxos de uma gente ao mesmo tempo mística e dura; altiva e humilde, aguda e inocente, frágil e forte.  

Dois estilos foram desenvolvidos no nordeste, nos dois maiores centros de manifestações religiosas: em Caruaru, Pernambuco, próximo de Nova Jerusalém e em Juazeiro do Norte, no Ceará, terra do Padre Cícero. No primeiro as figuras são destacadas do fundo, no segundo o campo todo está talhado num só relevo. Na escola de Caruaru os contornos são claros, na de Juazeiro, há menos contraste entre a massa impressa e o fundo fora da área de impressão.

O movimento de busca das identidades brasileiras, de valorização das raízes nacionais e de reconhecimento de nossas origens profundas encontra na xilogravura uma proposta popular de estética que vai além das dimensões do cordel e atinge as dimensões do humano.

A estética da xilogravura foi descoberta pela classe média urbana brasileira a partir da década de 60 e passou a ser valorizada como estética de resistência à colonização e dominação cultural. A fase áurea da xilogravura coincide com a explosão do Cinema Novo, da música popular e com o movimento de revalorização da literatura comprometida com as raízes nacionais do qual são expoentes Ariano Suassuna, Guimarães Rosa, João Cabral de Mello Neto e Dias Gomes. Esse movimento que revolveu a cultura nacional tinha como pano de fundo a construção de Brasília. Descobriu-se, então, um outro lado do Brasil: o interior.

©2007. Exposição 100 Anos de Xilogravura na Literatura de Cordel. Um projeto Cultura & Criatividade